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Condições de Trabalho - Fábrica de cachaça no Subúrbio submete funcionárias a condições precárias de trabalho


18/09/17

O barulho incomoda. Vem de um tanque de metal, um processador que mistura água e açúcar. Disjuntores e fios à mostra estão próximos a pequenas garrafas pet e mangueiras que contêm cachaça. O cheiro forte enjoa. De chinelos, saias e vestidos, elas não usam qualquer tipo de proteção, com exceção de algumas luvas. Mesmo assim, não são usadas por todas as cinco funcionárias, além de um homem recém-admitido.

 
O lugar, sujo e improvisado, aparece em imagens de vídeo registradas há pouco mais de 20 dias pelo CORREIO. Com câmeras escondidas, a reportagem entrou no galpão onde funciona a produção da Indústria e Comércio de Vinho Veleiro de Ouro, como é registrada a empresa.
 
A denúncia era de que o dono de uma fábrica de bebidas alcoólicas submetia mulheres a condições degradantes de trabalho. Apesar do nome, a fábrica é de cachaça. E fica instalada em uma rua deserta no bairro de Ilha Amarela, Subúrbio Ferroviário.
 
Nila, Natércia, Elizete e Maude, nomes fictícios com os quais identificaremos quatro das cinco mulheres, disseram que trabalham há anos sem férias, não podem ir ao médico sem ter o dia “cortado”, recebem R$ 400 por quinzena e são obrigadas a enfrentar um ambiente insalubre sem qualquer Equipamento de Proteção Individual (EPI). Entre elas, está a própria esposa do dono da fábrica.
 
A quinta funcionária, Leonice de Souza, 47 anos, não só autorizou a divulgação do seu nome como pediu para ele ser incluído na reportagem. “Quero usar como prova na Justiça para ter meus direitos”, disse ela.
 
Há oito anos em múltiplas funções na Veleiro de Ouro, Leonice conta que não sente mais cheiro. Acredita que seu olfato está prejudicado pelo fato de trabalhar sem máscara em um ambiente sem ventilação e com forte odor de álcool.
 
Com diversos problemas de saúde, ela diz que sequer podia ir ao médico, senão R$ 30 eram abatidos do seu salário.
 
Ela e as outras confirmaram que trabalham sem EPIs. “A farda ele não dá. Na hora de tampar a cachaça, espirra no corpo. Não tem óculos, não tem máscara. Fico com os pés dentro da cachaça. Precisa de bota. Às vezes falta luva. Hoje em dia eu já nem sinto mais cheiro. Consumi tudo cheirando a cachaça”, relata.
 
No mercado de Salvador e de Feira de Santana, onde o único produto fabricado pela Veleiro de Ouro é comercializado, a empresa utiliza o nome fantasia Topcana. Nos registros da Serpro, a Topcana é de propriedade de Genival Cintra Pinheiro. Após analisar as imagens registradas pelo CORREIO, o Ministério Público do Trabalho (MPT) realizou operação no local e identificou nada menos que 25 irregularidades trabalhistas. As atividades da empresa foram suspensas. 
 
Ainda segundo as trabalhadoras, a fábrica chega a envasar 6 mil litros de aguardente por dia. “É muita cachaça que a gente envasa. Às vezes, a gente envasa seis tanques de mil litros no dia. É muita garrafa para uma pessoa só ficar no pé da máquina tampando todos os dias”, denuncia Leonice.
 
Não há funções definidas. Leonice explica que todas as funcionárias fazem de tudo. “Eu empacoto, eu tampo, eu fecho fundo das caixas, boto camisinha nas garrafas (rótulos), arrumo no palete e carrego o caminhão.” O resultado é sentido no corpo.
 
Ao lado de sacos enormes com pets pequenas de cachaça, conhecidas como “bombinhas”, Natércia é uma das responsáveis por envasar o produto. “É um pouco difícil, né? Não ganha hora extra. Nunca tira férias. É muito arriscado trabalhar aqui. A gente tem muitos problemas de saúde”, afirmou a funcionária. Natércia reclamou do trabalho pesado. “Sabe o que é bater mil caixas no dia nesse caminhão aí? É muito peso. Só tem um homem trabalhando aqui. A gente mulher que faz tudo.”
 
Antes, diz Nila, outra funcionária, sequer tinha banheiro no galpão. O sanitário que foi improvisado recentemente não tem nem porta. “Eu mesmo, que moro aqui perto, vou fazer minhas necessidades em casa”, afirma Nila. Quando falam do patrão, a quem chamam de Val, as funcionárias dizem que ele é “gente boa”, a não ser que elas precisem de algo.
 
“A gente conversa com ele e ele conversa com a gente. Mas se precisar ir no médico, se for resolver alguma coisa e chegar depois de 9h, ele corta o dia”, disse Elizete. Mas, por que essas mulheres continuam trabalhando em condições tão ruins?
 
Maude, a quinta mulher do grupo de funcionárias, é companheira do dono da fábrica. As outras apontam alguns privilégios concedidos a ela. “Pode ir no médico, pode chegar atrasada.” Mas, dizem elas, Maude também pega no batente. “Não pega como a gente, mas sabe o que a gente sofre.”
 
Segundo a própria Maude disse, por semana, a empresa produz, em média, 1,2 mil caixas com 12 pets de 500 ml de cachaça. Cada caixa uma é vendida a R$ 20. “Quando compra uma quantidade maior a gente faz por R$ 18 ou R$ 17. O pessoal de Feira compra muito”.
 
Além do galpão e do maquinário improvisado, a empresa possui um caminhão, diz Maude, para fazer entregas. Ela ainda afirma que parte da cachaça crua, antes de ser misturada à água com açúcar processados em Ilha Amarela, vem de Feira. O CORREIO entrou em contato com Genival Cintra Pinheiro, apontado como o dono da fábrica. Val, como é conhecido, chegou a atender uma de nossas ligações, mas preferiu não dar entrevista.
 
O advogado de Val, Gerson Santos, afirmou que só vai se manifestar sobre a questão depois que tudo for regularizado. “Creio que daqui a dez dias vai estar tudo certo. Ele vai regularizar a vida de todas elas”, disse o advogado, referindo-se apenas aos problemas de registro na carteira de trabalho. 
 
Sobre o ambiente insalubre, as máquinas improvisadas e a produção repleta de riscos à saúde e à vida das mulheres, o advogado disse que a fábrica vai voltar a funcionar em um novo galpão. “Esse galpão estava funcionando de forma provisória. Vai reabrir com tudo certinho”, garantiu. 
 
Ministério Público do Trabalho interdita Galpão
 
Após analisar as imagens registradas pelo CORREIO, o Ministério Público do Trabalho (MPT) e a Superintendência Regional do Trabalho (SRT-BA) instauraram procedimento e convocaram o Grupo Especial de Combate ao Trabalho Escravo para realizar uma operação no local. Havia a denúncia de que cinco mulheres eram submetidas a trabalho análogo ao escravo em Ilha Amarela.
 
Uma semana depois, no dia 24 de agosto, acompanhados da Polícia Federal, MPT e SRT-BA fizeram uma batida no galpão. A denúncia se confirmou parcialmente, já que a classificação de trabalho escravo exige características que não eram latentes neste caso. Mas os órgãos confirmaram que as mulheres são submetidas a condições precárias de trabalho e identificaram pelo menos 24 irregularidades trabalhistas.
 
 


Fonte: Correio 24 horas


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