Pareto
e a Segurança
Marcos Sêmola(*)

O cientista italiano Pareto descobriu, no século
passado, uma relação de causa e efeito em que 80% dos resultados são
gerados por apenas 20% do esforço. Pode parecer irreal, mas o tempo e os
exercícios contínuos com os números foram mostrando aos gestores que 20%
dos vendedores de uma empresa geram 80% das vendas ou que 20% dos clientes são
responsáveis por 80% da receita.
A importância de Pareto para a Segurança está
associada à grande dimensão do esforço necessário para reduzir e
administrar continuamente os riscos da informação. Apesar das
vulnerabilidades físicas, tecnológicas, humanas e processuais crescerem e se
renovarem diariamente, o montante de investimentos compatível com o valor do
bem que se quer proteger, ou simplesmente disponível, é finito.
Essa limitação é real e os problemas são
muitos, portanto, o grande e atual desafio dos Chief Security Officers (CSOs)
e das consultorias especializadas, é a estrutura de suporte ao processo decisório
que definirá o que deve ser postergado, o que deve ser priorizado e até
mesmo, o que deve ser esquecido e não poderá ser atendido pelos
investimentos.
É uma situação difícil, sem dúvida, mas a
busca cega pela excelência teórica baseada apenas em normas internacionais e
melhores práticas, devem ceder à necessidade prioritária de gerir
baseando-se nos interesses do negócio. O ato de investir em segurança da
informação deve ser conduzido com a mesma seriedade com que um executivo
decide ampliar sua linha de produção ou automatizar sua força de vendas, ou
seja, pensando no resultado.
Não faz sentido algum investir tempo, dinheiro ou
recursos de qualquer natureza, que valham mais do que o próprio bem
protegido. Não faz sentido realizar ações em processos longos de análise
de segurança se eles não puderem orientá-lo a corrigir falhas com
velocidade. Não faz o menor sentido despender esforço para obter a certificação
BS7799, por exemplo, se os maiores problemas que comprometem a integridade de
suas informações, continuam sendo o vírus, o perímetro internet, sua
infra-estrutura elétrica e a conduta de seus funcionários. É como preparar
um automóvel para uma viagem dura de 2.000 km, instalando pneus reservas,
piloto automático, peças sobressalentes para o motor e sistemas de
posicionamento global, e esquecer de abastecer o tanque de combustível.
A regra de Pareto deve nortear executivos de
segurança e consultorias, pois tempo e dinheiro são finitos, mas os
problemas não. Decidir o que é prioritário, o que é mais representativo
para a natureza do negócio, avaliar o que é relevante, contextualizar as
falhas e identificar as ações que representam os 20% de esforço que
proporcionarão 80% do resultado.
Investimento inteligente é a chave que pode tirar das costas o peso do
investimento que não consegue ser medido; dos projetos que geram apenas belos
e pesados relatórios; da busca inconsistente pela certificação; da solução
apenas academicamente perfeita e da especificação de políticas de segurança
enlatadas e utópicas. Mesmo aplicado à segurança, estamos falando de
investimento que, como em qualquer outra situação, deve estar orientado aos
interesses do negócio e de seus gestores, proporcionando a geração de mais
dinheiro, a redução de perdas e a redução dos riscos.
Veja aqui algumas considerações para apoiar o
processo de decisão e aprimorar os investimentos em segurança da informação:
- Requisitos do negócio (natureza das
atividades, sensibilidade, tolerância, criticidade);
- Planos de negócio de curto, médio e longo
prazo (plano de desenvolvimento e investimento);
- Relevância dos processos para o negócio
(relação direta e indireta com os resultados financeiros);
- Percepção de prioridade dos ativos da
informação (dependência dos processos de negócio);
- Limitações técnicas, temporais,
financeiras, legais e outras específicas (regulamentações setoriais,
Constituição, plataformas tecnológicas etc);
- Risco inerente, risco presente e risco
residual (configuração de risco previsível, risco atual e risco
final ou desejável);
- Situação atual e situação desejada (nível
de segurança ideal para o contexto do negócio: compatibilidade de
investimento e tolerância);
- Modelo de maturidade (acompanhamento de
indicadores e medição dos resultados para retro-alimentar o processo de
gestão de riscos).
Marcos Sêmola
é
SAM Security Consulting Manager da multinacional Atos Origin, Consultor Sênior
em Gestão de
Segurança da Informação, CISM - Certified Information Security Manager,
Professor de Segurança
da Informação da FGV - Fundação Getúlio Vargas, MBA em Tecnologia Aplicada,
Bacharel em
Ciência da Computação, autor do livro Gestão da Segurança da Informação
- uma visão executiva,
Ed.Campus e eleito pelo prêmio SecMaster, Profissional de Segurança da Informação
de 2003 cat4.
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