Paranóia
da segurança chega ao usuário final
Marcos Sêmola(*)

Demorou mas chegou ao usuário final o
comportamento paranóico da segurança da informação. Para os profissionais
de Tecnologia da Informação (TI), há muito o assunto é conhecido, sendo
também o principal responsável pelo desenvolvimento de uma síndrome de medo
ou respeito pelos agentes eletrônicos de risco.
Muito antes da internet virar realidade, quando
os computadores ainda eram ilhas de processamento ou quando somente trocavam
mensagens por meio de Boletim Board Systems (BBS), a percepção dos riscos de
segurança para programadores, administradores de sistemas e profissionais de
TI em geral já era elevada.
Era um comportamento praticamente restrito aos
profissionais da área por conta de seu profundo envolvimento com a tecnologia
e pela possibilidade de enxergar as "engrenagens" dos bastidores que
faziam toda a mágica funcionar. Já o usuário final, procurava no meio de
tanta complexidade, encontrar aplicabilidade para os sistemas de informação,
planilhas de cálculo e editores de texto, que já requeriam grande
desenvoltura por conta das interfaces pobres e das confusas linhas de comando
e seu velho prompt C:>.
Ocorre que tudo mudou muito rapidamente. O poder
de processamento dos computadores cresceu exponencialmente acompanhado de seu
barateamento relativo. As interfaces de hardware se multiplicaram e
diversificaram-se assim como as interfaces de software que ganharam agentes
inteligentes levando praticamente o usuário no colo para ensiná-lo a colar
uma imagem, gerar um vídeo e customizar sua área de trabalho.
Por traz de toda a facilidade de uso que os
fabricantes prometem e os usuários procuram, se escondem praticamente as
mesmas "engrenagens" de antigamente, mas agora invisíveis e muito
mais lubrificadas. E o usuário também não é mais o mesmo. O grau de
penetração da tecnologia em sua vida é muito maior e mais intenso. A dependência
dos sistemas de informação, dos serviços de correio eletrônico e da
internet é enorme, o que motivou o desenvolvimento da paranóia da segurança
em todo e qualquer usuário.
A melhor maneira de comprovar esta percepção
é avaliar os softwares comercializados em grande escala, em todo o lugar e
para todos os perfis de usuários. Em 1987, por exemplo, Peter Norton e seu
conjunto de aplicativos para manutenção de sistemas operacionais, eram
conhecidíssimos, mas somente para os profissionais de TI. Dez anos depois, os
firewalls eram produtos sofisticados e conhecidos especialmente pelos
administradores de rede e especialistas em conectividade e segurança.
Usuários armados
Atualmente, podemos comprar até pelos canais de
compras das TVs, toda a sorte de hardware e programas de proteção para o usuário
final. São antivírus que além dos vírus bloqueiam spyware (sistemas espiões),
anúncios no formato pop-up e mensagens de spam.
A realidade é mesmo dura. Os usuários estão
paranóicos. As tão amigáveis interfaces já não dão tanta liberdade de
movimento, bloqueando tudo antes de perguntar ou simplesmente pressupondo que
aquele e-mail de família é a ameaça mais devastadora que pode existir,
colocando-o em quarentena para nunca mais ser lido.
Medo do clique
As pessoas não querem mais trocar tantas
informações, pois os certificados digitais que assinam as mensagens deixam
seu cliente de e-mail muito lento, travando-o esporadicamente. As pessoas
enviam cartões eletrônicos de Natal e aniversário fingindo que seus
destinatários irão lê-los e eles, por sua vez, também fingem que o
fizeram, mas todos estão com muito medo de tudo.
Clicar virou uma ação de risco. Qualquer
movimento provoca um alerta do firewall, do antivírus, do detector de
intrusos, do sistema anti-spam ou ainda do controle de conteúdo, transferindo
quase sempre o risco para o usuário, que terá de autorizar ou desautorizar
aquele movimento.
Os computadores descobriram o som e para tudo
existe um sinal sonoro, o que torna difícil é decifrar o ocorrido. Terá
sido um ataque ou foi simplesmente um sinal de bateria fraca? Sendo mesmo um
ataque, terá sido bem ou mal sucedido? Isso é paranóia!
Estamos todos pisando em ovos e envoltos por
mais aplicações de segurança do que de programas de produtividade que
justificam a existência de um computador sobre a mesa. É certo que a percepção
dos riscos de segurança deve existir e que o comportamento dos usuários deve
ser ajustado às suas sensibilidades e à importância de suas aplicações e
informações, mas também é certo que deve existir um ponto de equilíbrio.
Todos os dispositivos que mencionei têm uma razão
de existir, afinal, as ameaças também são uma realidade, mas nem todos
devem se justificar para todos e configurados da mesma maneira. Proteger é
preciso, mas ter saúde para usufruir tudo que a tecnologia ainda nos reserva
é prioritário.
Marcos Sêmola
é
SAM Security Consulting Manager da multinacional Atos Origin, Consultor Sênior
em Gestão de
Segurança da Informação, CISM - Certified Information Security Manager,
Professor de Segurança
da Informação da FGV - Fundação Getúlio Vargas, MBA em Tecnologia Aplicada,
Bacharel em
Ciência da Computação, autor do livro Gestão da Segurança da Informação
- uma visão executiva,
Ed.Campus e eleito pelo prêmio SecMaster, Profissional de Segurança da Informação
de 2003 cat4.
Sugestões e comentários para esta coluna podem ser enviados a marcos@semola.com.br