LER E DORT: AS FAMOSAS DOENÇAS PROFISSIONAIS
Thienne Marcondes


Ler – Lesões por Esforços Repetitivos - e Dort – Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho - estão preocupando empresas e funcionários. Os profissionais acometidos por estes problemas, que atingem pessoas de várias idades, precisam se manter afastados de suas atividades profissionais por um determinado período. Segundo uma pesquisa realizada em outubro de 2001 pelo Datafolha, 64% dos 1.072 profissionais entrevistados com LER e DORT afirmam que os sintomas das doenças prejudicam o desempenho profissional; todos já tiveram quer ficar afastados da empresa por um determinado período.
As conhecidas doenças profissionais atingem pessoas que realizam o mesmo tipo de movimento diversas vezes ao dia. "LER e Dort são problemas que podem ocorrer quando a pessoa usa demais uma determinada parte do corpo, repetindo ou mobilizando gestos, o que causa um sofrimento local nas articulações", explica o ergonomista Laerte Idal Sznewar.
Para Laerte, o problema não é está nas pessoas, mas sim no que elas fazem e na maneira como fazem. Estas doenças não atingem somente os profissionais que passam grande parte do dia digitando, mas qualquer outro que fique muito tempo fazendo os mesmos movimentos, principalmente os que trabalham com produção em série, linhas de montagem e desmontagem, atividades que exigem exercícios muito fragmentados. "O relaxamento da postura, punhos estendidos e todas as tarefas mal projetadas também são causadoras do problema", alerta o ergonomista.


EMPRESAS PREVINEM DOENÇAS PROFISSIONAIS EM SEUS FUNCIONÁRIOS

Laerte explica que LER e DORT podem ser graves, e em alguns casos podem ocasionar a perda da capacidade de fazer esforços com as mãos e os braços. "As pessoas que apresentam estes problemas precisam passar por um processo de reabilitação, parar um pouco o trabalho e fazer fisioterapia", alerta Laerte.
De acordo com os dados da pesquisa do Datafolha citada anteriormente, a maioria dos profissionais diagnosticados com os problemas foi tratada com medicação (57%) e fisioterapia (55%). Deste total, 52% foram obrigados a se afastarem da empresa por conta do tratamento.
E devido à grande quantidade de afastamento dos funcionários, as empresas estão recorrendo à ginástica laboral. A Softway Contact Center, empresa que atua no segmento de telemarketing em São Paulo, Jundiaí e Florianópolis, é uma delas.
Na filial de São Paulo, o programa de ginástica laboral é aplicado desde 1998. "É um gasto a mais, mas diminui o afastamento dos funcionários", afirma Fábio Branco Cabral, supervisor de Fisioterapia da Softway. Todos os funcionários da empresa participam da ginástica laboral diariamente. "Durante os 15 minutos que antecedem o começo do expediente, todos os funcionários fazem exercícios de alongamento e relaxamento", enfatiza Fábio. "Depois, de hora em hora, há uma pausa para exercícios de distencionamento, e no final do expediente é feito um outro relaxamento", conclui.
Bárbara Medrato Fagundes, coordenadora Jurídica da empresa, é uma das pessoas que já teve problemas de LER, e hoje considera a ginástica laboral uma ótima forma de tratamento e de prevenção. "Além de prevenir problemas de postura, fazemos alongamento e nos descontraímos", conta ela.


PRATICANDO EXERCÍCIOS PARA EVITAR ESFORÇOS REPETITIVOS

Para Laerte, as pessoas podem e devem fazer exercícios dentro ou fora do trabalho, mas fazer só isso é errado. "Só a ginástica laboral não adianta; ela é uma pausa que tira a pessoa da situação de estresse, mas sozinha não resolve, apenas só reduz as queixas", explica. Segundo o especialista, também é preciso melhorar o trabalho e ter em mãos as ferramentas adequadas para isso. "Não adianta fazer os exercícios e trabalhar numa mesa pequena, onde só cabe o computador, sem espaço para apoiar o braço, por exemplo", questiona.
Fábio Branco Cabral concorda com Laerte ao dizer que o posto de trabalho é como se fosse um carro: quando entramos nele, precisamos ajustar o banco e os retrovisores. Na Softway, por exemplo, assim que um novo funcionário chega ele preenchimento um formulário sobre a sua estatura e o seu posto de trabalho. "De acordo com as respostas, fornecemos os equipamentos adequados ao posto de trabalho e ao porte físico do novo colaborador, além de dar orientações sobre os ajustes dos equipamentos e orientação postural", complementa.
E atenção: nem sempre comprar equipamentos de escritório mais baratos é sinônimo de economia. Se a empresa fornece um equipamento qualquer ao funcionário, pode perder o que economizou nos dias em que o colaborador pedir afastamento por problemas como LER ou DORT. "Às vezes, uma economia aparente pode causar prejuízo. É preciso projetar as tarefas com ferramentas adequadas e escolher com cuidado os equipamentos de trabalho", aconselha Laerte.


O COMPUTADOR, O GRANDE VILÃO

Algumas empresas como Henkel Mercosul, BankBoston, GE-Dako, Bosch e Natura, entre outras, adotam o uso de um software para prevenir e diminuir o índice de LER e DORT em seu quadro de funcionários. O Magnitude EMS é um software específico para monitorar a atividade computacional dos funcionários, e serve para controlar os toques de teclado, a velocidade de digitação, a atividade do mouse e o tempo total de atividade computacional por hora. Luiz Maniero Neto, gerente de Marketing da Keen System, empresa distribuidora do software, explica que, de acordo com o ritmo de trabalho de cada setor, o sistema dispara pausas, disponibilizando exercícios de alongamento animados na tela do computador, para que os funcionários relaxem. "São 20 exercícios para cinco partes do corpo que aparecem na tela automaticamente", enfatiza.
O software também disponibiliza informações detalhadas sobre ergonomia. "A grande dificuldade das empresas que lidam com LER e DORT por conta do uso do computador é saber qual é o ritmo real de trabalho das pessoas. Nenhuma pessoa sabe o quanto realmente digita ou quanto tempo efetivamente passa em frente ao computador, e estes dados são fundamentais para identificar o risco de lesão no trabalho", afirma Luiz.


EXERCÍCIOS PARA EVITAR LER E DORT

A personal trainner Célia Gennari, formada em Educação Física e pós-graduada em Fisiologia do Exercício, garante que não há nada melhor para começar o dia de trabalho do que uma boa espreguiçada. "A espreguiçada serve para alongar o corpo. É a forma mais natural de alongar naturalmente quase todos os músculos do corpo", explica Célia. Segundo a especialista, o alongamento é necessário para preparar os músculos para determinada atividade, tornando-os mais flexíveis.

Mas o alongamento é só o começo de uma série de exercícios e massagens simples que podem prevenir LER e DOT e podem ser feitos a qualquer hora do dia e em qualquer lugar. Veja alguns exercícios aconselhados por Célia:

- Se você estiver em pé, afaste um pouco as pernas na largura dos quadris ou dos ombros, mantendo o equilíbrio. Não se esqueça de flexionar um pouco os joelhos. As pernas não devem ficar totalmente esticadas.

- Se você estiver sentado, preferencialmente numa cadeira sem apoio para braços, não descuide da sua postura. Sente-se com a coluna reta, abdômen contraído, pés ligeiramente afastados e pernas formando um ângulo de 90 graus. Esta é a postura ideal que você deve manter sempre, durante todo o expediente de trabalho. Uma má postura comprime os órgãos internos do abdômen e as pernas flexionadas dificultam a circulação sangüínea.

- Inicie os exercícios sempre elevando os ombros como se fossem tocar as orelhas e solte, deixando-os cair como pesos. Repita este movimento dez vezes. Inspire quando subir os ombros e expire quando deixá-los cair.

- Levante o ombro direito e quase o encoste na orelha. Solte-o da mesma forma mencionada no exercício anterior. Faça o mesmo com o ombro esquerdo. Dez repetições de cada lado, e não se esqueça da respiração!

- Com a mão esquerda, apalpe o músculo que fica entre o ombro direito e o pescoço. Dê pequenos beliscões e, em seguida, aperte-o com as pontas dos dedos, fazendo movimentos circulares. Sinta a região. Quanto mais dolorida estiver, mais tenso o músculo está. Repita o exercício dez vezes de cada lado.

- Penda a cabeça para um lado, como se fosse encostar a orelha no ombro, conte até 20 e volte devagar. Faça este movimento do outro lado também. Caso não tenha a sensação de alongamento do músculo próximo ao pescoço, na região das costas, ajude com a mão. Assim, quando pender a cabeça para o lado direito, coloque a mão direita sobre a cabeça sem forçar, apenas dando um peso a mais.

- Deixe a cabeça pender para frente, utilizando as duas mãos próximas à nuca, quando necessário.

- Alongue os dedos das mãos. Imagine que sua mão está cheia de água e que você precisar dar uma torcida para diminuir este volume. Faça isso dez vezes com cada mão.

- Faça uma bolinha de papel e amasse-a bem forte. Pegue outro papel e repita o movimento com a outra mão.

- Ainda sentado, deixe os braços ao lado do corpo e deixe o corpo pender para um lado. Conte até dez e repita o movimento do outro lado.

- Levante-se, posicione-se atrás da cadeira e agache, sem tirar os calcanhares do chão. Lembre-se de que cada um tem o seu limite. Fique agachado durante 20 segundos e se levante devagar. Este alongamento é ótimo e vai mexer bastante com a parte inferior do seu corpo. Respire normalmente durante o movimento.

Repita esses exercícios no mínimo uma vez em cada período do dia ou sempre que se sentir tenso ou dolorido.



* Thienne Marcondes é repórter do jornal Carreira & Sucesso.

Esta matéria foi originalmente publicada no jornal Carreira & Sucesso - www.catho.com.br/jcs