O Brasil e o Bioterrorismo

Eduardo Batista Borges

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As instituições brasileiras não estão suficientemente preparadas, em termos de recursos materiais e humanos, para enfrentar, com eficiência, um ataque com armas biológicas. Em sua imensa maioria, nossos laboratórios oficiais de diagnóstico e de produção de imunobiológicos indispensáveis à proteção da população estão precariamente equipados, desatualizados e carentes de pessoal.

A possibilidade de reverter esse quadro é exeqüível desde que a gravidade da situação seja compreendida pelas autoridades e uma decisão política - acima dos interesses partidários e pessoais - seja tomada, com a urgência necessária, e os recursos financeiros rapidamente disponibilizados.

O Conselho de Veterinária do RJ reuniu uma equipe de dez especialistas - civis e militares - e elaborou um trabalho inédito, sob o título 'Defesa Biológica Nacional', endossado pelo Conselho Federal de Medicina Veterinária, já entregue às autoridades federais.

Segundo especialistas veterinários, a maior parte dos vírus, bactérias e fungos geneticamente modificados para serem transformados em armas biológicas contaminam homens e animais.

A transformação desses agentes é feita através dos recursos da bioengenharia, hoje dominados por um expressivo número de profissionais do mundo inteiro, inclusive nos países mais pobres.

O caso recente do Bacillus anthracis, geneticamente modificado e liofilizado (transformado em pó) é apenas um exemplo - e não o mais grave. Mas, foi suficiente para aterrorizar diferentes povos e nações.

Vírus modificados contra os quais vacinas tradicionais não imunizam; doenças letais altamente contagiosas nas mãos de terroristas e comercializadas por mercenários dão uma boa idéia do perigo que ameaça o mundo. Alarmismo? Não, é a pura realidade. O que, evidentemente, não significa que a tragédia irá acontecer. O hábito brasileiro de só tomar providências depois do problema acontecer, nesse caso não irá funcionar. Citemos o vírus da varíola, por exemplo. Não o comum, mas os tipos modificados pelo homem como armas biológicas e que são os chamados chimera virus, criados pela engenharia genética contendo partes de DNA de dois vírus diferentes.

Em 1991, os russos introduziram material genético do vírus da encefalite eqüina venezuelana (VEE) no DNA do vírus da varíola, criando o chamado Veepox. Recentemente, segundo o Dr. Kanatjan Alibekov, cientista russo atualmente radicado nos Estados Unidos, a mesma equipe criou um outro vírus recombinante (ebola-varíola-chimera) que produz uma varíola hemorrágica de efeito fulminante. Segundo ele, esses vírus viajaram com biólogos mercenários para o Iraque, Líbia e outros países árabes.

Esses vírus-armas são altamente contagiosos e transmissíveis de animais para homem, entre animais e de homens para animais. Através de programas mundiais de vacinação em massa, a varíola foi erradicada em 1977, quando o último caso foi relatado na Somália.

Possivelmente, a vacina tradicional apresentará resultados contra esses vírus/armas criados com fins bélicos. Por isso, o mundo todo está trabalhando no desenvolvimento de uma vacina monoclonal para ser eficaz contra todas essas diabólicas criações da bioengenharia.

Um médico veterinário brasileiro, o virologista Luiz Horta Barbosa, pesquisador do Institutos Nacionais de Saúde (NIH), do Ministério da Saúde dos Estados Unidos está supervisionando um grupo que espera obter resultados a curto prazo com uma nova vacina (monoclonal) capaz de imunizar contra esses vírus da varíola modificados.

Quais os objetivos desse trabalho inédito promovido pelo Conselho de Veterinária do Rio de Janeiro? Objetivamente, preparar o País para um eventual ataque com armas biológicas. Mais: contribuir para a redução do hiato biotecnológico e da dependência científica estrangeira; organizar um sistema nacional de defesa biológica integrado e inteligente, baseado na vigilância epidemiológica; estimular a indústria nacional - oficial e privada - na busca de autonomia científica e suficiência tecnológica na produção de produtos biológicos, medicamentos, materiais e equipamentos de medidas operacionais profiláticas e preventivas em vários níveis.

Outras tarefas são criar um centro estratégico integrado interinstitucional e multidisciplinar de defesa química e biológica para dar suporte estratégico, técnico, operacional e logístico aos vários níveis do governo; organizar uma força-tarefa, suficientemente equipada e adestrada para atuar em qualquer parte do território nacional e capaz de identificar os agentes químicos e biológicos, contingenciando as doenças exóticas; organizar uma rede de informação, de domínio aéro-terrestre-marítimo, unindo pontos estratégicos de entrada e saída do País, para controle e monitoramento ambiental, em caso de emergência, e ativação do Plano Estratégico de Biossegurança Nacional.

Eduardo Batista Borges - Presidente do Conselho de Medicina Veterinária do Estado do Rio de Janeiro (CRMV/RJ) - crmvrj@crmvrj.com.br