PREVENÇÃO
SEM EXAGEROS
Cosmo Palasio(*)
O
conjunto formado pelo equilíbrio das ações e compreensão na natureza
comercial das atividades e uma
das pontes que podem levar a área de Segurança e Saúde no Trabalho ao
futuro, tantos em termos de sobrevivência pura e simples, como na pretensão
de estar inserida na forma adequada dentro do contexto das empresas.
Talvez,
por ter surgido e se mantido a sombra da legislação, muitos de nós jamais
tenhamos nos preocupado em ser mais do que arautos da própria lei, num tempo
e em meio a relações onde arautos não tem mais espaço. Desde muito cedo,
deveríamos ter optado não pela mera leitura da legislação, mas pela
capacidade e utilidade de ler, interpretar e como técnicos - propor formas de
transformar em realidade. Perdemos o bonde da história quando mesmo sendo técnicos
insistimos em continuar como inspetores.
De
nada adianta chorar o leite derramado. Já foi. Podemos sim chorar pela perda
da oportunidade, o que se traduz na prática na posição que ocupamos hoje
dentro das empresas. Não há qualquer dúvida que o cenário deveria ser
diferente, afinal de contas em nossas mãos e carecendo de nossos
conhecimentos estão o que há de mais essencial a todo o sistema: a saúde de
quem faz ! É uma pena que muita gente ainda não prestou atenção nisso e
certamente por este deslize deixou que o tempo passasse satisfazendo-se com um
cantinho qualquer, de onde como profeta da prevenção emitia seus pareceres.
E
o problema não estava só nos pareceres, algo que soa que como legitimo ao
detentor da responsabilidade de orientar aos demais quanto ao cumprimento da
questão. Mais grave ainda e que muitos destes pareceres ou coisa que valha
careciam de total embasamento mais consistente. Por conta disso, muitos de nos
deixamos de ser ouvidos e alguns ficaram mesmo sem entender o porque.
Certamente houve falta de qualidade técnica, restringindo-se ao
"cumpra-se e revogo as disposições ao contrário"; Faltou-nos
sensibilidade para perceber algumas coisas a mais, em especial que fazemos
parte de um negócio e que o objetivo do negocio é bem mais amplo do que
aquilo que vemos parcialmente.
Ficamos
por muito tempo na estação do "precisa porque precisa".
Interessante e que por todo sempre gritamos a altos brados que um dos
problemas estruturais de nossa área era a mesmo a falta de cultura
prevencionista. Mas será que contribuímos para que isso mudasse dizendo as
pessoas que "tem que fazer porque é lei ?" Ou teríamos sido mais
generosos se com argumentos mais elaborados levássemos as pessoas a tal
entendimento ?
Verdade
seja dita: faltou-nos capacidade e discernimento. São erros históricos de
uma categoria. Nem todos foram assim, olhe para os lados e verá que em alguns
locais a nossa área cresceu e ocupou espaços.
Importante
agora é buscarmos espaço. Obvio, que o tempo tornou tudo mais difícil, mas
de forma alguma impossível. O centro do assunto continua sendo o homem, a
tendência e que a valorização da vida ocupe o seu verdadeiro lugar. As
regras do mundo levam a crer que
os custos gerados pela coisa da falta de prevenção terão que ser levados em
conta. Tudo isso desenha um novo bonde - hoje quase supersônico - que se
perdermos novamente….
A
PREVENÇÃO ISOLADA
Não
há nada mais cômodo no mundo do que definir regras, nada mais hipotético do
que esperar que as pessoas simplesmente as cumpram e nada mais frustrante do
que notar que perdemos tempo nas duas coisas. Isso é um verdade ! E por esta
verdade passa o caminho obrigatório em direção a uma prevenção de
acidentes pelo menos mais contemporânea. Se no passado o problema era
demonstrar que haviam ações para…..hoje é importante garantir que há
resultados em….fora deste contexto não há vida nas relações
empresariais.
Distante
vai o tempo em que não deveríamos pensar nos impactos da prevenção no todo
da empresa. Estamos aqui mencionando o divisor de águas, entre o que poderá
ser a prevenção de acidentes do futuro e o que jamais foi a do passado.
Dissemos por muito tempo que segurança é parte do negocio, mas esquecemos de
ver as demais partes deste mesmo negocio. E agindo assim, caminhamos na direção
contrária de todos os demais objetivos, quando deveríamos na forma correta
ter caminhado lado a lado. Não é difícil imaginar que os resultados obtidos
- ou seja - a segregação de nossa área dos principais fóruns das empresas
- ocorreu, e ao invés de sermos vistos como aliados - que de fato somos -
passamos a ser vistos como meros complicadores.
O
raciocínio é simples: Negocio é feito para dar dinheiro. Segurança e Saúde
com certeza quando bem aplicados auxiliam na consecução deste objetivo; Então
porque estamos tão distantes ?
Há
pouco tempo, quando participava de um curso de auditoria, conheci um Executivo
de uma grande e conhecida empresa, profissional que há mais de 20 anos atua
como Gerente de RH de conhecidas empresas. Travamos algum tipo de relação e
um dia durante o almoço ele me disse que a impressão que tinha do pessoal de
Segurança do Trabalho era a mesma do porta voz de hospital. Questionado ele
rindo me disse o seguinte: " A operação foi um sucesso, a equipe
dedicou-se, mas o paciente morreu !"
Tempos
depois, conversando com um amigo, que ocupa um alto cargo em uma multinacional
de telecomunicações ele me dizia que a segurança só tem dois verbos: quero
e preciso !
Deixando
de lado os exageros, acabamos convencidos que há nisso muita verdade.
Olhando bem os fatos, vamos encontrando inúmeras situações que
conduzem para este lado, Lembro-me aqui de um deles: numa grande fábrica, em
determinado setor com cerca de 300 empregados, verifiquei que todos os
empregados faziam uso de calçado com bico de aço. Observado bem o local, não
encontrava qualquer tipo de risco ou razão para tal uso. Tomei coragem e
questionei o colega quanto ao assunto. A resposta foi simplesmente curta: De
fato não há qualquer risco .É uma questão de tradição ! Nem de longe
aquele colega certamente pensou no quanto contribuía para o absenteísmo por
calosidades ou coisas assim e mais ainda, o quanto custava manter aqueles
empregados com aqueles calçados.
Não
para ai. Numa outra grande empresa, durante anos o uso do capacete foi obrigatório.
Por conta disso, algumas pessoas chegaram a ser demitidas pela recusa ao uso
do EPI. Num belo dia, um novo empregado questionou a Diretoria do porque do
uso do capacete. Foi um pânico só ! O SESMT - completo foi chamado a
responder. Depois de dias de estudo, não restou outra alternativa senão
declarar a incompetência informando que "muitos dos empregados que hoje
trabalham na fábrica, trabalharam na construção dela e por esta razão o
uso do capacete tornou-se formal, embora de fato não exista nenhuma razão
objetiva para que isso ocorra - o uso será (e foi) descontinuado"
Tempos
depois acompanhei uma situação ainda mais interessante. Em determinada área
de uma multinacional construíram uma linha para trabalhos contínuos e simultâneos
em ambos os lados. Logo no inicio da atividade, começaram os problemas e
acidentes porque os empregados "por pura indisciplina" insistiam em
pular a linha. Diante do problema, o SESMT da empresa abriu um projeto para
fazer 4 passagens por cima da linha, coisa que custavam assim U$ 20 mil.
Diante do projeto do SESMT a CIPA local começou a exigir……gerou-se um
conflito, até que um dia alguém foi de fato analisar o problema e concluiu
que na verdade os empregados não desejavam pular a linha, ocorre que na
definição do projeto tanto os pontos para carregamento das ferramentas elétricas
como as áreas onde havia disponibilidade de café foram instaladas apenas de
um lado da linha. Com muito menos recursos foi corrigido o problema.
E
segue por ai afora, a quantidade de desmandos com os recursos da empresa, com
prevenção exagerada ou sem qualquer sentido; Equipamentos comprados e que não
são utilizados, ausência de uma política para conservação e recuperação
de EPI, enfim, tudo aquilo que faz com que nossa área trabalhe sem qualquer
evidencia de compromisso com os objetivos gerais das empresas
Obviamente
nossa área tem muita importância, mas não o bastante para que seja tratada
como um nicho diferente, sem fazer questão de participar na forma comum com
as demais. Não podemos ser diferentes ! Necessitamos levar as nossas
necessidades mas também saber mostrar nossa participação no negocio. Se
sempre fomos passíveis a utilidade, com certeza nos faltou tato e habilidades
para mostrar isso.
UM
CASO APARTE
Devemos
sem dúvida cumprir a legislação. Leis foram feitas para serem cumpridas e
quem acha que elas estão erradas, que procure os fóruns apropriados a este
tipo de discussão, mas enquanto não o fazem, devem cumprir.
Uma
questão antiga em meio as NR diz respeito aos Operadores de Veículos
Industriais. Exagero ou não há na legislação uma preocupação clara com
este tipo de atividade - o que as vezes me causa estranheza porque o mesmo não
ocorre por exemplo com empregados que trabalham em altura - tipo de atividade
que mais mata em todo mundo. Mas a questão não é esta. Como todos sabem
para conduzir um veiculo industrial o empregado deve ser HABILITADO e durante
o horário de trabalho portar uma cartão de identificação visível - com
nome, fotografia. Um pouco acima - no próprio texto da legislação fica
claro que o empregado deverá receber treinamento especifico - dado pela
empresa - que o HABILITARÁ nessa
função.
Ao
longo dos anos, visando um padrão mínimo de segurança - apesar da legislação
ser clara que o HABILITADO diz respeito a HABILITAÇÃO EM TREINAMENTO, muitos
SESMT adotaram como pré requisito para Operadores de Veículos Industriais a
apresentação da CNH, carteira Nacional de Habilitação. Na minha forma de
ver a medida tem sentido, afinal de contas um condutor habilitado por CNH tem
os conhecimentos básicos quanto a legislação de trânsito, necessários a
condução de um veiculo.
No
entanto, causa-me surpresa que agora muitos SESMT de empresas estejam
trabalhando para que todos os Operadores de Veículos Industriais tenham CNH
categorias C e D, ou seja aquelas destinadas a condução de veículos
utilizados em transporte de cargas e passageiros. Até onde se exigiu a CNH
como meio de garantir conhecimento das regras básicas de trânsito é
perfeitamente compreensível. No entanto o que adicionará a segurança um
Operador de Empilhadeira ter habilidades para dirigir um caminhão ou ônibus
? Justificável seria, se as auto
escolas mantivessem cursos para veículos industriais, no entanto não
existem. A diferença entre um caminhão é uma empilhadeira dispensa comentários
adicionais.
Tais
posturas são complexas. Primeiro porque geram custos, há casos de empresas
com centenas de operadores. Alguém precisará arcar com estes custos, se não
a empresa, pior ainda o empregado, que além de tudo está sujeito a não ser
aprovado nos exames, exposto a uma pressão pela necessidade de manter o
emprego. Por outro angulo, há grande possibilidade de conflitos com as
representações dos empregados. Em resumo, gera-se um panorama de custos
adicionais, de homens afastados para treinarem em algo que em nada se aplica a
operação. O que isso agrega de fato a prevenção de acidentes ? Seria este
mais um exagero ?
MUDANDO
O FOCO
São
coisas assim que me preocupam. Prefiro partilhar da idéia de que podemos
proteger pessoas sem exageros e ao mesmo tempo participando ativamente do
negocio. Não há mais espaço para prevenção feita desta forma, criando por
criar, sem que exista um mínimo questionamento quanto a relação
custo-beneficio. Difícil, colocando-se no lugar de outros atores deste
processo, supor que alguém entenda ações desta natureza, mesmo eu não
entenderia.
Precisamos
repensar nossas atividades, deixarmos de lado e para o ontem os exageros, as
formalidades que pouco contribuem para resultados. Necessitamos sair detrás
das pilhas de papeis e sentarmos as mesas das decisões para darmos um formato
adequado a aquilo que fazemos. Como área técnica, não devemos nos esquecer
dos resultados……..
Deixemos
para o ontem o tempo do "precisa porque precisa" . Olhemos bem em
nossas fábricas e vejamos que por detrás da loucura da proteção por
atacado, tem gente a varejo sendo penalizada pelo uso de equipamentos que
incomodam e cujo uso só se justifica pela real necessidade
Ou
acabamos com os exageros, ou perdemos tudo. Eis ai uma boa escolha. Ou seremos
homens de soluções ou ficaremos no tempo e história como meros geradores de
problemas.
Cosmo
Palasio Morales Junior
Técnico
de segurança do trabalho, fundador e moderador do e-mailgroupo SESMT
Também possui vários artigos publicados em revistas de SST