Fazer o dever de casa!
Edison Fontes(*)
Numa das rodadas do campeonato paulista de futebol, um grande
time ganhou três pontos relativos a uma vitória. Porém, com a derrota ou empate
dos outros grandes times, que jogaram com times menores, a vantagem desse time
vitorioso foi mais do que os três pontos da sua vitória. Sobre este fato lembro
a frase de um comentarista: "O time fez o seu dever de casa. O mesmo não
aconteceu com os demais!" Quem acompanha futebol sabe que, no final do
campeonato, esses pontinhos perdidos fazem uma grande diferença. Muitas vezes, a
perda do campeonato acontece pela negligência do "dever de casa" e não pela
derrota em um grande clássico.
Muitas organizações não fazem o seu dever de casa em relação à segurança da
informação. Olham apenas para os grandes projetos e esquecem as decisões e os
processos simples que permitirão uma proteção adequada. Mas o que seria o dever
de casa em termos de segurança da informação? Seria implementar e manter efetiva
algumas ações:
a) Ter uma política e dar conhecimento a todos
É fundamental para a organização ter uma política de segurança e proteção da
informação. Mas, considere essa política a explicitação da filosofia da
organização em relação à proteção da informação. Evidentemente, ao longo do
tempo, deve-se ter o conjunto de políticas mais específicas, ter as normas e ter
os procedimentos. Mas, de imediato, tenha essa política "guarda-chuva", tipo os
Dez Mandamentos, assinada pela alta direção. Nela deverão constar diretrizes,
tais como: a identificação deve ser individual, a senha deve ser secreta, o
acesso deve ser registrado, deve existir o gestor da informação, o gestor é quem
deve autorizar o acesso da informação, devem existir cópias de segurança e
outros requisitos básicos.
b) Alinhar a segurança aos requisitos de negócio.
A segurança existe para permitir que o negócio funcione no que depender dos
recursos de informação. Os níveis de segurança requeridos devem atender aos
requisitos de negócio. É fundamental passar essa mensagem para a alta
administração e para as áreas de negócio.
c) Conscientizar e treinar os usuários
É necessária a conscientização dos usuários em relação à segurança da
informação. Também deve-se treinar os usuários sobre ferramentas de trabalho e
comportamento pessoal de modo a proteger a informação no nível adequado. Muitas
vezes problemas acontecem porque o usuário não foi treinado para o uso correto
do correio eletrônico.
d) Buscar uma segurança fácil para o usuário
Todas as áreas, principalmente as de tecnologia, devem entender que tudo deve
ser feito para facilitar a vida do usuário. É necessário tirar cópia de
segurança do micro de forma automática? Isso faz o micro ficar lento, mas tem
que ser feito. Então devemos permitir que o usuário defina parâmetros sobre qual
a melhor hora para que a cópia de segurança seja efetuada. Mas, na prática isso
não acontece, porque dará muito trabalho à área de apoio (help desk) para
configurar cada equipamento. É fixado um horário e os usuários que se ajustem.
Temos que facilitar a vida do usuário e conseqüentemente facilitar o cumprimento
de controles.
e) Ter um responsável pelo processo de segurança
É necessário ter um profissional, de preferência com dedicação integral de
tempo, para ser o responsável pelo processo de segurança na organização. Mais
ainda: este profissional deve estar em um nível hierárquico de independência
para poder registrar os problemas, sugerir ações e cobrar implementações.
Adianta pouco ficar preocupado com o vazamento de informação se não foi feito o
dever de casa de definir:
- o gestor de cada informação,
- o processo para a autorização do acesso,
- o registro (log) dos acessos realizados, e
- a orientação de como cada usuário deve ter em relação à
confidencialidade da informação que acessa.
O "dever de casa" é fazer ações básicas, estruturais. Como esse é um bom
caminho, acredito que todos os profissionais gostariam de segui-lo, mas muitas
vezes isso não acontece. Quais seriam as razões? O que você acha? Se você é um
profissional de segurança, já conseguiu fazer sua "lição de casa"? Se não: o que
você aponta no seu caso como dificuldade?
Independente da sua resposta procure compartilhar experiências com outros
profissionais. Da mesma forma como quando mais jovens na escola perguntávamos:
"E aí, fez todo o dever de casa? Conseguiu resolver a quinta questão? Me mostra
o resultado!" E acontecia naquele momento uma ação de aprendizado. Podemos fazer
isso no meio profissional. Basta querer e agir para alcançar.
Como está sua organização? Tem feito o dever de casa em segurança da informação?
Se cada item acima citado valesse dois pontos, qual seria sua nota?
Edison Fontes
CISM, CISA, Security Officer GTECH Brasil,
é especialista em segurança e proteção da informação.
Envie um e-mail: edison@pobox.com